Ignorância, arrogância e faz-de-conta

Os portugueses continuam a esbarrar em tiques salazarentos, que ainda fazem parte da Democracia à beira dos trinta anos

Afagar o ego dos portugueses, transmitindo uma sensação de modernidade, continua a ser uma estratégia de eleição garantida. Todavia, não esconde a outra face da realidade, a que obrigou, por exemplo, o actual Governo a decretar, agora, oficialmente, o arranque de um programa para acabar com o balde higiénico nas prisões.

As notícias dos últimos dias, porém, dão conta de episódios que ultrapassam todos os limites, porque revelam uma filosofia que faz parte de um passado determinado pelo obscurantismo.

Luís Villas-Boas, psicólogo e director do Refúgio Aboim Ascensão, de Faro, declarou que a homossexualidade não é um comportamento normal, pelo que é preferível uma criança passar toda a vida numa instituição ou em famílias de acolhimento à infelicidade de ser educada por homossexuais. O presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção Portuguesa, que tem direito à sua opinião, obviamente, devia ter pelo menos a lucidez de apresentar a demissão antes que o demitam.

Por sua vez, o espectáculo de uma dezena de segundos, com a libertação e a imediata prisão de Vale e Azevedo, deixou mudos os que insistem em elogiar, a todo o custo, a Justiça. O juiz Ricardo Cardoso, aparentemente, ainda não percebeu que vivemos num Estado de Direito, que confere aos cidadãos, inclusive aos arguidos, a prerrogativa de serem tratados com humanidade.

Por último, o julgamento de um médico e de sete mulheres, no tribunal de Aveiro, que tresanda a teatro politicamente correcto, permitiu revelar, supostamente, até que ponto a Justiça interpretada pelo juiz Paulo Brandão, porventura pelas boas razões, não é cega nem surda. De facto, e apesar de ainda não se conhecer qualquer comentário presidencial até ao momento, agora, como no passado, as leis parecem ser cada vez mais meras sugestões.

A declaração de Luís Villas-Boas, a decisão de Ricardo Cardoso e a atitude de Paulo Brandão representam as cores primárias que perduram numa pintura da realidade portuguesa. Deixam escapar o que ainda há de pior na sociedade e nas instituições porque traduzem, nas suas diferentes cambiantes, alguns tiques salazarentos, ou seja, o ressurgimento de uma liturgia ignorante, arrogante e de faz-de-conta.

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